Por uma perspectiva pluriversal na Não Monogamia - As vezes precisamos de rótulos para nos localizarmos no mundo
Postado originalmente em 16 de abril de 2026
Acredito que você assim como eu já tenha esbarrado com posts em redes sociais e discursos em diversos contextos que se propõe a falar sobre a NM. Muitos destes conteúdos são direcionados para pessoas que estão começando ou querem se aproximar mais da Não Monogamia, mas também ressoam - as vezes - com questões que pessoas mais experientes na NM estejam passando.
Os clássicos são sempre ciúmes,
previsibilidade, a não hierarquização dos relacionamentos entre outros
temas que apesar de dividirem a opinião, há um consenso mínimo que
sustenta do que se espera de uma NM ética e política.
No
entanto, há alguns elementos que me incomodam nessas dicas. Ficava
refletindo se não era apenas um desconforto individual e que essas dicas
não eram para mim, logo isso teria cara de ser um problema único e
exclusivamente meu - Além do que, nem tudo irá servir para todos. Até
que me deparei com um post passando algumas dicas com passo a passo para
quem quisesse viver a NM e tive finalmente a última peça do
quebra-cabeça que faltava.
Muitas reflexões e
escritos sobre NM são produzidas por pessoas brancas - não entrarei no
mérito sobre outros marcadores neste primeiro momento. E pessoas brancas
possuem essa percepção de que são “normais” e suas vivências
universais, enquanto qualquer outra existência é tratado como um
“recorte”, a exceção. Há alguns anos também tenho me incomodado
discursivamente tratar minha existência e de outras pessoas não-brancas
como “recorte” pois faz parecer que a existência branca não seja também
um recorte.
Como dito anteriormente, o post em
questão, apresentava um tipo de receita com passos básicos, mas
fundamentais para se iniciar na não monogamia e o primeiro era abrir mão
dos rótulos, ter relações sem rótulos.
Acho
bastante delicado e daí, entra a importância de termos sempre a
preocupação de trabalhar com nuances e contextualização, principalmente
se tratando de uma proposta politizada de viver Não Monogamicamente é
discutir sobre o perigo de demonizar rótulos. Podemos sim, questionar
como estes rótulos estão e são povoados pela sociedade e neste processo
de desconstrução da monogamia ressignificá-los ou abandoná-los para
criação de novos.
No entanto, a ausência de rótulos
para algumas existências é ansiogênica e reforçam as relações de poder
presentes na sociedade, pois nós pessoas de populações minorizadas somos
rotuladas desde o momento zero de nossa existência e navegamos
subjetiva e materialmente assim, buscando nomear nossas experiências e
desfazendo daqueles rótulos que são nocivos para nós.
Para
ilustrar essa discrepância, é observar discursivamente o desconforto
das pessoas brancas, serem rotuladas como brancas. Algumas tem até a
pachorra de dizer que são apenas pessoas. Este desconforto é um
comportamento que surge quando seus privilégios de ser considerado a
hegemonia está ameaçado.
Curiosamente, discussões
recentes me fizeram repensar o uso indiscriminado de termos amplos, como
‘amiga(o)’ ou ‘amigue’, para definir toda e qualquer relação. Embora
essa linguagem se apresente sob um verniz de modernidade e despojamento,
muitas vezes ela funciona como uma ferramenta de invisibilização e uma
fuga da responsabilidade afetiva.
Ao rotularmos
vínculos distintos com o mesmo nome, criamos um tipo de apagamento: sob o
pretexto de sermos ‘desconstruídos’, descaracterizamos conexões
afetivo-sexuais e evitamos o peso do compromisso emocional. É preciso
ter cautela, pois ao aplicar a mesma régua para todos, ignoramos
marcadores sociais fundamentais de raça e gênero que moldam nossas
interações.
No fim das contas, a recusa em nomear
uma relação não é apenas uma escolha semântica; pode ser uma forma de
negligenciar a expectativa e o lugar que o outro ocupa em nossa vida,
silenciando sentimentos que mereciam ser devidamente reconhecidos.
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