Quando você decide ser a diversidade que deseja ver no mundo... Ou porque eu decidi voltar a pensar em voz alta.
Texto Originalmente Publicado no dia 4 de março de 2026
Decidi começar por aqui: uma
apresentação que é também uma cartografia dos lugares por onde ando,
onde escolho ficar e de onde tento, constantemente, sair.
Há
algum tempo queima e ficou mais intenso nos últimos meses o desejo de
compartilhar alguns pensamentos sobre Não Monogamia, não porque eu me
ache relevante para disputar espaço com quem se dedica a falar sobre o
assunto seja na internet com notório saber, na academia e/ou entre
outros espaços e contextos.
Decido escrever a partir de uma insatisfação. Sinto falta de pessoas como eu e quem sou eu?
Sou
uma pessoa negra, socializada como mulher - embora habite o campo da
não binariedade em constantes revisões e reflexões. Gorda, também
convivo com uma doença inflamatória crônica de pele e me entendo como
assexual bi/pan-afetiva, ainda investigando em qual tom e subtom da
escala cinza da assexualidade me encontro hoje. Minhas reflexões nascem
dessas e de outras camadas ainda mais difusas da minha existência.
Agora que estamos parcialmente apresentades, posso dizer: me faz falta ouvir relatos de quem deseja, vive e sofre como eu.
Minha trajetória na NM começou a ser desenhada em 2016, mas só “saí do armário” em 2020. Saí decidida a viver o que chamo de um adolescer tardio. Como minha primeira experiência romântica foi aos 18 anos, com um homem cis branco, senti que precisava recuperar o tempo de exploração que me foi negado, principalmente de minha sexualidade.
Pouco depois, iniciei um relacionamento com uma mulher trans branca e autista. Atravessamos juntas o suaa transição e a minha recém-assumida bi/panafetividade. Ela sempre se apresentou como poliamorosa; eu, no auge da minha insegurança e recém-saída de um término doloroso, não queria dividir aquele afeto com ninguém.
Foi nessa época, enquanto cursava Ciência Política em 2013/2014, que entrei em contato com os conceitos de Poliamor, Amor Livre e Não Monogamia pelas primeiras vezes. O que deveria soar empoderador, no entanto, parecia um privilégio distante. Naqueles espaços, pessoas negras e outros corpos nem estavam no fundo da prateleira, estavam eram fora dela, nunca cogitados a receber afeto, por menor que fosse. Também presenciei muita falta de responsabilidade afetiva; por isso, por muito tempo, me convenci de que a NM não era para mim, nem para outras pessoas negras; que aquilo era apenas uma “bagunça de gente branca”. Essa percepção me tornou ainda mais reticente em abrir mão da segurança (ilusória) de uma relação fechada.
Hoje,
meu pensamento e entendimento são outros. Acredito que a NM é para
todas as pessoas, pra quem se dispõe a vivê-la ética e politicamente,
com responsabilidade afetiva, especialmente com as populações
minorizadas. Mas confesso: em momentos de frustração, ainda praguejo
contra as “bobajadas” que somos obrigadas a aturar no meio.
Muitas das reflexões e supostas “boas práticas” da NM passam longe da realidade de quem, como eu, vive(u) anos no que chamo de escassez ou deserto afetivo.
Nesse cenário, qualquer sinal de afeto surge como um oásis. O problema é
que, na sede, pouco se reflete sobre a qualidade dessa água; quando não
sentimos que estamos na posição de escolher se queremos ou como
queremos viver algo, nos agarramos ao que aparece com todas as forças -
mesmo que isso nos empurre para as maiores e mais perversas armadilhas e
quando tentamos nos opor somos vistos como difíceis e exigentes, pois
estamos “pesando” algo que deveria ser “leve”.
Entre 2020 e 2024, vivi uma verdadeira montanha-russa. Estava, finalmente, experimentando minhas primeiras experiências em apps de relacionamento e buscando viver outras relações afetivo-sexuais. Cada vivência/tentativa era única, mas o resultado era praticamente o mesmo: irresponsabilidade afetiva, “NM de araque”, preterimento e um binômio estranho, concomitante, de hiper e hipossexualização.
A cada nova desventura, fui convocada a enfrentar minhas feridas, meus gatilhos e a questionar minhas próprias contradições em meus desejos. Tudo isso em meio a um esgotamento relacional profundo, causados pelos combos de orbiting e ghosting, além do famigerado “quero sua amizade” vindo de pessoas que não sustentavam o vínculo, mas usam a frase para não saírem como vilãs da história, retirando-se à francesa enquanto pensam que você não está vendo isso acontecer, principalmente quando estão em um relacionamento afetivo-sexual recém iniciado.
As coisas só começaram a mudar em meados de 2024, quando consegui formar e encontrar “terceiros espaços” com meus interesses como RPG, dissidências sexuais, livros e política. Eles me permitiram explorar outros aspectos da não monogamia, como o fortalecimento de amizades com outras pessoas NM - já que, até então, a única referência que eu tinha era a minha companheira.
No
entanto, ao ocupar mais os espaços físicos, percebi que o motivo do meu
antigo distanciamento e desconfiança ainda estava lá: a escassez de
pessoas como eu. Mas, desta vez, eu me sentia fortalecida e convicta o
suficiente para marcar presença.
Por isso decidi ser
a diversidade que desejo encontrar, falar cada vez em voz alta o que
penso e acredito e servir de incentivo para quem, como eu, hesita em
estar nesses lugares por se sentir só compartilhando não apenas as
dores, mas as boas experiências que viver a NM tem me causado. Ou seja,
meus textos são para mim, para vocês. Pois quero muito dizer e também
ouvir: “Eu te entendo e você não está só”.


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