"Culpa cristã" do mundo invertido: onde substituímos a culpa pelo desejo sexual com a culpa do desejo romântico

 Postado originalmente em 26 de abril de 2026

Demonizar o romance não é o mesmo de criticar a idealização do amor romântico

Há algum tempo venho pensando sobre este tópico em especial e depois de me deparar com posts retratando ele, decidi que deveria escrever sobre o tópico. E digo isso já partindo de um lugar implicado, porque eu mesma já caí nessa armadilha antes… Crente que estava rompendo com a idealização do amor romântico, quando, na prática, eu só estava mergulhando na culpa.

E percebi um fenômeno curioso, enquanto a Monogamia tenta te fazer sentir culpa de seus desejos sexuais, comecei a achar curioso que o discurso que está começando a ganhar maior visibilidade nas redes e nos espaços relacionados a Não Monogamia seja esse que consiste apresentar essa mesma culpa mas a recaindo sobre o desejo romântico.

E isso é curioso… porque muda a categoria, mas mantém a lógica e com qual propósito?

Pois, nesse movimento, comecei a demonizar o meu próprio desejo de viver a potência máxima das relações afetivo-sexuais que eu tentava construir. Como se tudo isso carregasse automaticamente um erro, um desvio, uma espécie de recaída na norma.

Mas será mesmo?

Sinto que existe uma confusão recorrente e pouco nomeada entre Atração Romântica e a Idealização do Amor Romântico®. E essa distinção, pra mim, tem se tornado cada vez mais necessária.

A Atração Romântica diz respeito ao desejo.

Desejo de proximidade, de construção, de troca afetiva, de partilha de intimidade em um registro que não é apenas sexual. É sobre querer viver experiências que são lidas socialmente como “românticas”, mas que não precisam, necessariamente, obedecer a um roteiro fixo.

Talvez isso fique ainda mais evidente quando olhamos para pessoas assexuais e/ou arromânticas - porque ali há uma separação mais nítida entre campos que, para muitos, parecem inseparáveis. A existência dessas vivências já desmonta, por si só, a ideia de que há um pacote único e indivisível entre amor, sexo e romance.

Já a Idealização do Amor Romântico é outra coisa.

Ela não fala apenas de desejo, fala de estrutura, um conjunto de regras/normas que devemos reproduzir. É a promessa de completude, de exclusividade como prova de valor, de fusão como objetivo, de hierarquia entre relações, de centralidade obrigatória de um vínculo sobre todos os outros. É essa construção que a não monogamia, em sua proposta crítica, busca tensionar e desconstruir.

Mas o que tenho visto e sentido, inclusive em mim é uma atitude que reforça o comportamento “evitativo” nas relações atuais: a crítica à idealização começa a se confundir com uma recusa do próprio desejo. Como se, para não reproduzir a norma, fosse necessário se distanciar de qualquer forma de Atração Romântica. De criar algo que tenha densidade emocional, fosse automaticamente um sinal de alienação. E aqui acredito que seja onde há uma arapuca.

Porque, nesse ponto, já não estamos mais criticando estruturas e sim regulando afetos. Estamos criando uma nova gramática moral, onde certos desejos passam a ser vistos como menos legítimos, menos conscientes, menos “evoluídos”.

Uma espécie de puritanismo afetivo, que não diz mais “não sinta isso”, mas diz “se você sente isso, talvez ainda não tenha desconstruído o suficiente”.

Só que desejo não é, em si, normativo. Ele não nasce puro nem contaminado, ele é atravessado pelos contextos e devemos nos apropriar cada vez mais das contradições e buscar refletir onde o desejo que sentimos é nos pertence ou porque nos disseram que devemos desejar de determinado jeito. - Ou seja, a questão, pra mim, nunca foi sentir, mas o que se constrói a partir do que se sente.

E talvez seja aí que a distinção entre viver o afetivo romântico e idealizá-lo se torne mais concreta, não no apagamento do desejo, mas na forma como ele é negociado, situado e encarnado.

Também gostaria de chamar atenção, mais uma vez, para o problema da narrativa única e universal da não monogamia. Porque ela existe e ela é muito marcada com o predomínio de vivências brancas, heteronormativas e, muitas vezes, atravessadas por certos privilégios afetivos que raramente são nomeados como tais. E creio que seja importante sempre demarcarmos isso, quando vamos falar sobre as coisas ou ao menos temos consciência disso se vamos falar com públicos amplos para não cair em hábitos colonizadores ao pressupor que os sujeitos já partem de um lugar de reconhecimento afetivo ao ignorar assimetrias de acesso a essas experiências como ao amor, ao cuidado e à escolha - como havia já mencionado em textos anteriores - além de tratar como “apego problemático” aquilo que, em outros corpos, pode ser resistência.

Porque quando olhamos para experiências de pessoas não brancas, sobretudo mulheres como é o público que esses conteúdos são normalmente direcionados, o desejo de ser escolhida não passa pelos mesmos lugares. Então o que acontece quando, dentro de um discurso crítico, esse desejo é rapidamente lido como apego? Como dependência? Como resquício de idealização?

O que acontece é que a gente corre o risco de produzir uma nova forma de silenciamento e controle que é também violenta porque descola o desejo da sua história. Descola o afeto das condições em que ele foi possível ou negado. Ignorando contextos históricos de preterimento afetivo, hipersexualização/hiposexualização sem reconhecimento emocional, negligência afetiva que ignora como sujeitas dignas de cuidado, vínculo e priorização.

Pois essa busca do “Romance” pode ser também lida para alguns grupos sociais como uma forma de reparação, afirmação de humanidade e reconfiguração de lugar no mundo.

Por isso, cada vez mais, tenho pensado que o problema não está em sentir atração romântica, mas no que fazemos para viver esse desejo e nas estruturas que escolhemos (ou não) reproduzir ao fazê-lo quando não recusamos suas formas únicas, rígidas e universalizantes.

Talvez seja permitir que ele exista de forma múltipla, situada, contraditória até sem que isso automaticamente o transforme em inimigo político. Porque, no fim, demonizar o romance não é o mesmo que criticar a idealização do amor romântico e confundir essas duas entidades pode nos afastar, justamente, daquilo que estamos tentando construir para nós.

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