Quem está com você nos seus piores dias? Os desafios de receber e pedir por cuidado...

 postado originalmente 11 de março de 2026

Não imaginava que voltaria a escrever por aqui tão cedo, mas a vida, às vezes para não dizer sempre nos dá rasteiras sem aviso prévio. Em um dia qualquer, o chão cede. E, ainda assim, a vida exige continuidade: o trabalho precisa ser entregue, a rotina não para, e a gente se vê, mesmo em frangalhos, ocupando o velho posto de cuidadora/e. Tranquilizamos parentes, acolhemos amigos, sustentamos afetos diversos... tudo isso enquanto o nosso próprio mundo interno desmorona.

Fica a pergunta que não quer calar: por que quem é sempre tão atento ao outro, quem antecipa o cuidado alheio, raramente recebe o mesmo amparo sem precisar pedir? Por que o gesto de socorro precisa ser solicitado e, pior, por que quando o pedimos, ele raramente vem com a mesma generosidade que oferecemos?

Acredito que cuidar é um aprendizado, um repertório que se expande com a experiência. No entanto, sabemos que alguns corpos são mais convocados a essa função do que outros. Aprendemos a cuidar quase por instinto de sobrevivência, projetando no outro o amparo que nos é familiar pela falta. Cuidamos do terceiro na esperança silenciosa de que, ao livrá-lo de um sofrimento conhecido, estejamos curando algo em nós mesmos.

No entanto, o cálculo nunca fecha.

E a conta fica ainda mais deficitária conforme o tempo passa. As relações pesam mais com o envelhecer; nossas pessoas queridas e fundamentais também se tornam mais frágeis. Somos convidados, cada vez mais cedo, a confrontar a finitude … seja a nossa e a de todos ao redor. É um peso que se acumula nos ombros de quem já está exausto de sustentar o cuidado alheio. No fim das contas, a dúvida que sobra é a mais solitária de todas: quando for a minha vez de perder o fôlego, romper e estilhaçar no chão igual um… sei lá… uma garrafa de vidro, quando for eu a chorar e sufocar de soluçar... enquanto estiver lidando com as perdas de referenciais de segurança e o espelho ou o eco do que sou no mundo.

Quem estará lá para me acolher num dia qualquer?

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